O primeiro dia oficial que comecei minhas aulas de desenho. Pense em uma pessoa ansiosa para começar as aulas e que achou que iria se dar muito bem.
"Ah, desenhava muito no Ensino Fundamental e no Médio, vou tirar essas aulas de letra. Não sei nada da teoria e lógica por trás, mas vou aprender num instante com o que tenho."
Cheguei na aula experimental e fazem a verificação introdutória, mostrar como desenha hoje e o seu traço, entre outros...
Não tinha nada a mostrar, e os desenhos que tinha eram perto de 6 anos atrás ou mais (O último desenho que tinha feito era realmente do Ensino Médio... Período esse que terminei em 2020).
...Mas mesmo assim, estava determinado.
Comecei do zero absoluto?
Comecei.
Só dei conta disso quando cheguei?
... Sim.
Eles pediram:
"Faça um rosto do jeito que você sabe fazer, do seu estilo".
O resultado foi essa cabeça de alien embaixo (o do meio é do professor, só pra deixar claro a diferença de qualidade):

... É, dá pra ver que ainda tinha muito para evoluir.
Certo, primeiro rosto. O professor inicia o desenho com um simples círculo. Depois disso, tem algumas linhas de referência e medidas conforme a metodologia Loomis. Ele teve a cordialidade e a disposição para fazer até um mini passo-a-passo para desenhar o rosto: círculos, pizzas, altura de sobrancelha, dos olhos, formato do pescoço, entre outros.

Show de bola, vamos começar a desenhar!
... A minha primeira dificuldade era desenhar um círculo.
UM.
FUCKING.
CÍRCULO.
Nesse momento, internamente entrei em desespero. Eu passei, por três horas, martelando o mesmo pensamento pessimista:
"Como que eu, um engenheiro de computação, que tirava boas notas em desenho técnico, não era capaz de desenhar um simples CÍRCULO?! Isso está muito errado..."
Sabe a cena do filme Whiplash? A que o protagonista leva uma cadeirada do professor por não tocar no seu ritmo?
Imagine ela repetindo, na sua mente, pela duração da aula inteira de desenho (Contexto: a aula tem 3h). Parece exagero... Mas acredite, isso realmente aconteceu em minha mente.
Eu sei o que está pensando:
"Nossa, então a aula foi horrível por ter que passar por essa tortura. O professor deve ter te lascado demais para te marcar assim. Se fosse eu, já teria saído da aula..."
Não. Toda essa tortura, essa loucura... Era eu frustrado comigo mesmo. Foi precisamente uma barreira que precisava ser superada. Não na aula de desenho, mas na minha vida como um todo.
Naquele momento, eu me projetava como o aluno e o professor ao mesmo tempo. Era o meu perfeccionismo mais atrapalhando do que ajudando. Era a perfeição e a insegurança de que, se não começar do jeito certo, se nada do que fizer não for milimetricamente e metodicamente calculado, não adiantava nem sequer o esforço.
Naquele cenário, por parte dos colegas e dos professores, não tinha pressão. Não tinha estresse. Não tinha nada ativamente causando essa tortura. O professor tinha disposição, era descontraído, ria e brincava junto com os alunos, dava toda a liberdade e o tempo para os alunos desenharem.
O próprio professor notou como estava. Eu estava a uma hora desenhando círculos e círculos em uma folha sem parar. Ele disse:
"Cara, não fica se prendendo no círculo ou em deixar ele perfeito. Você está no esboço ainda, não tem sentido estar perfeito agora. Você começa e ajeita conforme for desenhando..."
Então, eu parei e fiz exatamente isso. Pedi emprestado uma régua e um compasso e fiz uma estrutura base do rosto conforme as orientações do passo-a-passo.
Finalmente, o resultado foi o que você está vendo abaixo: o Gelado da Shopee. O cabeça-de-ovo dos Incríveis. E ainda por cima com as linhas de referência tortas (eu notei isso enquanto escrevia).

Tempo de desenho - 3h (contando surtos psicológicos internos)
Referência: Mini Passo-a-passo do professor, sem personagem específico
Longe de ser perfeito e mais ainda de um personagem de anime, mas era o início da minha superação. E também o começo de outro fator essencial no desenho: se soltar. Se libertar do perfeccionismo. Se libertar da preocupação pelo resultado final. Apenas... Desenhar. Claro, com um objetivo, com uma metodologia, mas não se deixar prender. Desenvolver a convicção aos poucos, e se permitir errar.
Desenhar é como aprender um instrumento ou um idioma novo. Além de descobrir e estudar, é essencial ter a prática durante o seu cotidiano. É produzir, por menor ou pior que esteja, é continuar. É se perdoar e tentar de novo.
Não se preocupe, as ilustrações seguintes não terão muralhas de texto como este, só as mais importantes e mais impactantes.
Escrito em 5 de Julho de 2026
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